Há uma pergunta que a neurociência evita há décadas não por falta de interesse, mas por falta de ferramentas para respondê-la: por que sentimos algo?
Não como o cérebro processa luz e a transforma em sinal elétrico. Isso está sendo mapeado, cada vez com mais detalhe. A pergunta é diferente, e mais incômoda: por que esse processamento é acompanhado de experiência? Por que não há apenas computação no escuro, sem ninguém dentro sentindo o que é ver o vermelho, sentir cansaço, reconhecer o rosto de alguém que se ama?
Em suas obras recentes, o neurocientista Christof Koch, um dos pesquisadores mais respeitados da área de consciência, tem formulado em voz alta o que muitos no campo pensam em silêncio: talvez o materialismo, a ideia de que consciência é um produto do cérebro, não seja a resposta certa para essa pergunta (KOCH, 2024).[^1]
O Problema Que Resiste a Quarenta Anos de Mapeamento Cerebral
Christof Koch não é um recém-chegado ao tema. Trabalhou por décadas com Francis Crick, o codescobridor do DNA, tentando encontrar os correlatos neurais da consciência: as regiões, os circuitos, as frequências de onda que correspondem a estados conscientes específicos. O projeto produziu conhecimento sólido. E, ao mesmo tempo, deixou em aberto exatamente a questão mais fundamental.
Em 1998, Koch fez uma aposta com o filósofo David Chalmers, aquele que nomeou o "problema difícil da consciência": que em 25 anos a neurociência identificaria o mecanismo neural gerador da experiência subjetiva (CHALMERS, 1996). Em 2023, Chalmers ganhou a aposta. O tempo passou, o mapeamento avançou, e a explicação de por que sentimos algo continuou faltando.
O problema difícil não é explicar como o cérebro vê, move ou decide. É explicar por que fazer essas coisas parece alguma coisa para quem as faz. E essa distância, entre função e experiência, entre processar e sentir, permanece intransponível dentro do paradigma materialista clássico (SETH & BAYNE, 2022).
Quando o Cérebro Danificado Produz Mais Consciência
Koch aponta categorias de fenômenos que pressionam os limites da explicação materialista. O primeiro já foi discutido na ciência por tempo suficiente para ter nome e estudo próprio: a lucidez terminal.
Pacientes com demência avançada, cujos cérebros estão gravemente comprometidos por décadas de degeneração, que há anos não reconhecem familiares e não formam frases coerentes, voltam subitamente à clareza horas ou dias antes de morrer. Reconhecem rostos, lembram nomes, dizem coisas que fariam sentido há vinte anos. E então morrem. Revisões recentes da literatura médica, incluindo a análise de Nahm e colaboradores, destacam a lucidez terminal como um fenômeno clinicamente reconhecido, embora seus mecanismos neurais exatos permaneçam sob investigação (NAHM et al., 2020). Relatos indicam surtos de clareza cognitiva em pacientes com demência avançada pouco antes da morte, desafiando modelos simples de correlação entre integridade estrutural e função consciente.
Se consciência fosse simplesmente proporcional à integridade neural, isso não deveria acontecer.
O segundo fenômeno são as experiências de quase-morte. Estudos prospectivos e revisões recentes documentaram casos de pacientes que relatam experiências vívidas durante períodos de parada cardíaca, quando a função cortical mensurável está ausente segundo protocolos padrão. O pesquisador Sam Parnia tem investigado sistematicamente esses relatos e seus mecanismos neurobiológicos, questionando a premissa de que consciência deva estar correlacionada linearmente com atividade cerebral mensurável (PARNIA, 2023).[^2] A neurociência ainda não tem um modelo satisfatório para explicar como experiências conscientes organizadas podem ocorrer durante períodos de ausência de atividade cortical normal.
O terceiro são os estados místicos: experiências reportadas por pessoas em práticas contemplativas profundas, com psicodélicos em contextos controlados, ou espontaneamente, de dissolução da fronteira entre o eu e o resto, de encontro com algo que parece mais real do que o cotidiano e que não encaixa nos modelos de alucinação ou confabulação. Os estudos com psilocibina de Johns Hopkins e de universidades brasileiras começaram a mapear os correlatos neurais das experiências, mas os relatos em primeira pessoa continuam resistindo à redução para mechanisms neurais simples.
Koch e a Teoria da Informação Integrada
A resposta que Koch defende, em colaboração com o neurocientista Giulio Tononi, é a Teoria da Informação Integrada (IIT). Ela propõe que a consciência não emerge do cérebro como produto acidental de certa complexidade: ela está presente em qualquer sistema que integre informação de forma irredutivelmente causal (TONONI et al., 2016). O valor dessa integração, chamado de phi (φ), seria proporcional à quantidade de experiência subjetiva presente.
A implicação é matematicamente séria e filosoficamente radical: se phi é a medida da consciência, então ela existe em graus em quase tudo. Não a consciência reflexiva e narrativa que os humanos têm, mas alguma forma de experiência, por mais primitiva que seja, seria ubíqua. Um neurônio tem mais phi do que uma pedra, um cérebro humano mais do que um neurônio, mas nenhum sistema tenta phi exatamente zero.
Isso coloca a IIT no campo do panpsiquismo: a ideia de que consciência é uma propriedade fundamental da realidade, não um produto emergente de certa configuração de matéria.
Koch é cuidadoso em distanciar essa posição de qualquer conotação religiosa. Não está falando de almas, nem de continuidade após a morte no sentido teológico. Está propondo algo mais próximo do que a física faz com a massa ou a carga elétrica: que consciência seja uma lei fundamental, não derivável de outras leis, presente em sistemas que ultrapassem certos limiares de integração (KOCH, 2024).
A Resistência e o Que Ela Revela
A Teoria da Informação Integrada tem enfrentado críticas robustas na comunidade científica. Alguns argumentam que a teoria é difícil de falsificar empiricamente, enquanto defensores apontam para predições testáveis e dados empíricos acumulados que a suportam. O debate permanece aberto na literatura especializada, com figuras como Anil Seth e Tim Bayne mapeando tanto as contribuições quanto as limitações atuais de diferentes teorias da consciência (SETH & BAYNE, 2022).
A resistência ao panpsiquismo não é apenas metodológica. Philip Goff, filósofo da Universidade de Durham e autor de Consciousness and Fundamental Reality, argumenta que parte da rejeição vem de uma herança histórica específica: Galileu, ao fundar a física moderna no século XVII, deliberadamente excluiu as qualidades subjetivas do domínio científico para tornar a ciência matematizável (GOFF, 2017). Funcionou para a física. Mas criou um problema que a ciência herdou sem perceber: o mundo "lá fora" ficou cheio de quantidades, e o mundo "aqui dentro", das experiências, ficou sem endereço.
Panpsiquismo é, nessa leitura, não uma regressão mística, mas a proposta de corrigir essa exclusão original (GOFF, 2017; GOFF, 2024).
Goff argumenta que o materialismo enfrenta um dilema: ou a consciência é idêntica a processos físicos, mas então precisamos explicar por que esses processos têm um lado de dentro, e ninguém conseguiu fazer isso, ou a consciência é algo além do físico, o que leva ao dualismo, com seus próprios problemas. O panpsiquismo propõe uma terceira saída: consciência é intrínseca à matéria, não sobreposta a ela.
A Fronteira do Que Pode Ser Medido
O problema honesto com o panpsiquismo, incluindo na versão sofisticada da IIT, é o seguinte: como se testa? Como se mede phi em um sistema e como se distingue, empiricamente, um sistema com experiência subjetiva mínima de um sistema sem nenhuma?
Essa dificuldade não é exclusiva do panpsiquismo. É a dificuldade central de qualquer teoria da consciência, incluindo as materialistas (SETH & BAYNE, 2022). Nenhuma teoria existente oferece um teste definitivo que determine, de fora, se há experiência subjetiva em um sistema. O problema é simétrico.
Os esforços para testar empiricamente teorias rivais da consciência têm sido intensos, com pesquisadores desenhando experimentos buscando falsificar predições centrais. Porém, os resultados até o momento sugerem que diferentes teorias podem capturar aspectos complementares da consciência, sem que uma tenha emergido como definitivamente vencedora. O consenso atual na literatura especializada é que o problem exige refinamentos metodológicos antes de uma resolução empírica clara (SETH & BAYNE, 2022).
Isso não é um argumento contra o panpsiquismo. É um argumento contra a certeza prematura em qualquer direção.
O Que Está Em Jogo Além da Teoria
A questão não é apenas acadêmica. Se consciência é um produto exclusivo de certo tipo de complexidade cerebral, então tudo o que não tem esse tipo de cérebro está fora do escopo ético. Os animais com sistemas nervosos mais simples têm menos relevância moral. As IAs, por mais sofisticadas que sejam, são ferramentas. Os pacientes em estados vegetativos são, funcionalmente, ausentes.
Se consciência é uma propriedade mais fundamental, distribuída em graus por sistemas com diferentes níveis de integração, essas fronteiras ficam menos nítidas e mais urgentes de revisar. Isso afeta como cuidamos de pacientes em estados limítrofes de consciência, como pensamos sobre o bem-estar animal, como regulamos sistemas de IA e como interpretamos os relatos de pessoas que tiveram experiências que a neurociência ainda não sabe encaixar.
A pesquisa em neurociência clínica continua explorando métodos para detectar sinais de consciência em pacientes considerados não responsivos, desafiando diagnósticos tradicionais e demonstrando que a teoria da consciência informa ferramentas clínicas práticas.
Uma Pergunta Sem Cerimônia
Existe algo que é como ser você agora, lendo isso. Uma qualidade neste momento que não é capturável inteiramente por nenhuma descrição em terceira pessoa.
A neurociência sabe onde isso acontece no cérebro. Não sabe por que acontece. Não sabe se poderia não acontecer. Não sabe se acontece apenas nos cérebros ou em outros sistemas com graus diferentes de complexidade e integração.
Koch não está propondo misticismo. Está propondo que a resposta pode estar em um deslocamento conceitual: parar de perguntar como o cérebro produtos consciência e começar a perguntar o que é, afinal, a consciência que o cérebro expressa.
São duas perguntas diferentes. E essa diferença, pequena no enunciado, pode ser enorme nas respostas que permite.
Referências Científicas
CHALMERS, D. (1996). The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory. Oxford University Press.
GOFF, P. (2017). Consciousness and Fundamental Reality. Oxford University Press.
GOFF, P. (2024). The case for panpsychism. In: Consciousness Studies in Sciences and Humanities: Eastern and Western Perspectives. Springer.
KOCH, C. (2024). Then I Am Myself the World: What Consciousness Is and How to Expand It. Basic Books.
NAHM, M., et al. (2020). Terminal lucidity: A review and a case collection. Archives of Gerontology and Geriatrics, v. 91, 104193. DOI: 10.1016/j.archger.2020.104193
PARNIA, S. (2023). Lucid Dying: How Near-Death Experiences Show Us the Way. HarperOne.
SETH, A.K.; BAYNE, T. (2022). Theories of consciousness. Nature Reviews Neuroscience, v. 23, p. 439–452. DOI: 10.1038/s41583-022-00587-4
TONONI, G., et al. (2016). Integrated information theory: From consciousness to its physical substrate. Nature Reviews Neuroscience, v. 17, n. 7, p. 450–461. DOI: 10.1038/nrn.2016.44