Em 2019, um artigo publicado no Psychological Medicine, da Universidade de Cambridge, descreveu os resultados de um ensaio clínico duplo-cego randomizado, com grupo controle placebo, testando os efeitos de uma única sessão de ayahuasca em pacientes com depressão resistente a tratamento. Em um único dia após a administração, os pacientes do grupo ativo mostraram redução significativa dos sintomas (PALHANO-FONTES et al., 2019). A resposta persistiu por sete dias. O artigo é hoje um dos mais citados da pesquisa psicodélica mundial, ao lado dos trabalhos de Johns Hopkins e Imperial College de Londres.
Ele foi feito inteiramente no Brasil. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal.
Uma Vantagem Que Não Foi Planejada
Enquanto pesquisadores de outros países passavam décadas tentando navegar a legalidade de substâncias rigorosamente controladas, o Brasil teve, por razões que misturam história, cultura e regulação específica, algo que nenhum centro de pesquisa europeu ou norte-americano possuía: acesso legal, contínuo e socialmente enraizado a substâncias que o restante do mundo proibiu.
A ayahuasca, bebida preparada com o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas de Psychotria viridis, é legal no Brasil desde 1987, quando o Conselho Federal de Entorpecentes reconheceu seu uso religioso como legítimo. Tradições como o Santo Daime, a União do Vegetal e a Barquinha mantêm comunidades de centenas de milhares de pessoas que a consomem ritualmente há décadas. Esse uso prolongado, observado e documentado em populações saudáveis, ofereceu aos pesquisadores brasileiros uma base que não existe em nenhum outro lugar: dados de segurança de longo prazo em condições naturalísticas, antes mesmo de qualquer ensaio clínico formal.
A ibogaína, derivada da planta africana Iboga e com histórico de uso em rituais do Gabão, também foi pesquisada no Brasil antes de qualquer outro país do Sul Global. Pesquisadores da Unifesp publicaram estudos clínicos sobre seu uso no tratamento de dependência química, com resultados que chegaram a taxas significativas de remissão sustentada em acompanhamentos de um ano, na maioria dos casos com um único tratamento (XAVIER DA SILVEIRA et al., 2014).[^1]
A jurema-preta, Mimosa hostilis, árvore nativa do Nordeste brasileiro, tem suas raízes usadas em rituais indígenas e afro-brasileiros há séculos. Seu princípio ativo é a DMT, a mesma molécula presente na ayahuasca, mas em forma isolada e em concentração controlável. Em 2025, o grupo do CAMP, Centro de Pesquisa Clínica Psicodélica do Hospital Universitário Onofre Lopes da UFRN, publicou resultados de um ensaio clínico de fase 2 com DMT vaporizada para depressão resistente (FALCHI-CARVALHO et al., 2025). A taxa de resposta, definida como redução de 50% ou mais nos sintomas, foi de 85%. A remissão completa, no sétimo dia após uma única sessão, chegou a 57%. Reduções significativas dos sintomas permaneceram por até três meses.
É a primeira vez que a DMT foi testada por inalação em pacientes, em qualquer lugar do mundo. E foi feito em Natal, com extrato de jurema do Nordeste, por pesquisadores de uma universidade pública federal.
Os Nomes e o Que Eles Construíram
Por trás dos resultados há trajetórias que valem ser nomeadas, não como celebração, mas como contexto.
Dráulio Barros de Araújo é físico de formação, professor do Instituto do Cérebro da UFRN desde 2009 e diretor do CAMP. Em 2006, quando a palavra "renascimento psicodélico" ainda não existia no vocabulário científico, seu grupo usou neuroimagem funcional para mapear o que acontece no cérebro humano sob influência da ayahuasca. Em 2012, publicou um dos primeiros estudos de neuroimagem da ayahuasca no mundo. Em 2019, publicou o ensaio randomizado com controle placebo que se tornou referência global (PALHANO-FONTES et al., 2019; ARAÚJO et al., 2024).
Fernanda Palhano-Fontes, neurocientista da UFRN, é coautora do ensaio de 2019 e do estudo de fase 2 com DMT de 2025. Seu nome aparece no ranking dos artigos mais citados da pesquisa psicodélica mundial, ao lado de pesquisadores consolidados do Imperial College de Londres e Johns Hopkins. Em levantamentos bibliométricos, o artigo do grupo da UFRN foi destacado como um dos ensaios clínicos mais influentes do campo.
Sidarta Ribeiro, biólogo e cofundador do Instituto do Cérebro da UFRN, possui doutorado pela Rockefeller University e pós-doutorado na Duke University. É uma das vozes mais ouvidas no debate público sobre o potencial clínico dos psicodélicos e foi um dos responsáveis por conectar a pesquisa brasileira às redes internacionais do campo (ARAÚJO et al., 2024).
Nicole Galvão-Coelho, também da UFRN, é referência em estudos sobre os efeitos da ayahuasca no sistema endócrino e em biomarcadores de estresse, contribuindo com uma dimensão fisiológica que vai além dos desfechos psiquiátricos.
Na USP de Ribeirão Preto, pesquisadores como Jaime Hallak e José Alexandre Crippa construíram, desde os anos 2000, uma linha de pesquisa com canabinoides e ayahuasca que precedeu o renascimento psicodélico internacional. Na Unifesp, Dartiu Xavier da Silveira conduziu os primeiros estudos com ibogaína para dependência química do país. Na UNICAMP, pesquisadores como Luís Fernando Tófoli contribuíram com trabalhos sobre os usos religiosos e clínicos da ayahuasca. Na UFRJ, Stevens Rehen trabalha com modelos de organoides cerebrais e psicodélicos.
É uma rede de pesquisa distribuída por cinco estados, construída ao longo de vinte anos, sem o financiamento que os centros norte-americanos e europeus receberam para o mesmo tipo de trabalho.
Como Esses Compostos Agem no Cérebro
A pergunta que a pesquisa brasileira ajuda a responder não é apenas "funciona?", mas "por quê?"
A DMT e a psilocibina são agonistas dos receptores serotoninérgicos 5-HT2A, presentes em alta densidade no córtex pré-frontal e em regiões que compõem a rede de modo padrão (DMN). Essa rede, ativa durante o repouso e associada ao pensamento autorreferencial e à ruminação, está cronicamente hiperativa na depressão. Os psicodélicos clássicos a desativam de forma aguda, reduzem a rigidez dos padrões de conectividade cerebral e aumentam transitoriamente a plasticidade sináptica (HARADA et al., 2023).
Uma revisão sistemática publicada no International Journal of Neuropsychopharmacology em 2023 confirmou: há disrupção aguda consistente na conectividade em repouso dentro da DMN, acompanhada de aumento da conectividade funcional entre redes cerebrais normalmente segregadas (HARADA et al., 2023). Em termos mais acessíveis: o psicodélico temporariamente dissolve padrões fixos de processamento mental e abre uma janela de reorganização. É nessa janela que o trabalho terapêutico parece ocorrer com mais eficiência.
As betacarbolinas presentes na ayahuasca — harmina, harmalina e tetrahidroharmina — adicionam uma camada de complexidade: além de inibir a enzima que degradaria a DMT no sistema digestivo, agem sobre o sistema monoaminérgico de forma análoga a antidepressivos IMAO, mas com perfil de ação mais amplo. A DMT isolada, como na pesquisa da UFRN com jurema, permite estudar o componente psicodélico puro, sem essa sobreposição.
A Tensão entre a Ciência e a Regulação
O Brasil produz pesquisa de classe mundial com psicodélicos e ao mesmo tempo mantém a DMT como substância de uso controlado para fins não religiosos, sem regulamentação clara para uso clínico. Essa contradição cria um ambiente estranho: pesquisadores publicam na Nature sobre eficácia clínica de substâncias que não poderiam ser prescritas em uma consulta médica no mesmo país.
Pesquisadores como Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, têm criticado publicamente esse descompasso. O Brasil avança na produção de evidência e atrasa na criação de marcos regulatórios que permitam a tradução dessas evidências para a prática clínica. Enquanto o Oregon regulamentou o uso terapêutico da psilocibina em 2023, e a Austrália aprovou o uso da psilocibina e do MDMA em psicoterapia assistida no mesmo ano, o Brasil permanece sem uma via regulatória definida para essas substâncias fora do contexto de ensaio clínico.
Isso não cancela a relevância da pesquisa. Mas coloca uma pergunta legítima sobre quem irá, afinal, se beneficiar dela primeiro.
O Que a Jurema Carrega Além da Molécula
Há um elemento da pesquisa brasileira que não aparece nos artigos de neuroimagem e que os próprios pesquisadores têm levantado com crescente atenção: o contexto.
Os povos indígenas do Nordeste brasileiro usam a jurema há séculos em rituais de cura, de comunicação com ancestrais e de regulação comunitária. O conhecimento sobre como usar a planta, em que circunstâncias, com quais cuidados, não está nos manuais farmacológicos. Está nas práticas das comunidades que a cultivaram ao longo de gerações.
A equipe do CAMP tem se envolvido em diálogos com comunidades indígenas sobre as dimensões éticas da pesquisa, levantando a questão da descolonização do conhecimento: quem nomeia o princípio ativo, publica o artigo e colhe os benefícios comerciais não é necessariamente quem desenvolveu o conhecimento original sobre a planta.
Esse não é um debate acadêmico periférico. É uma das fronteiras mais importantes que a pesquisa psicodélica brasileira terá de cruzar, se quiser ser, de fato, de vanguarda.
Uma Abertura
A depressão resistente a tratamento afeta cerca de 30% das pessoas que não respondem aos antidepressivos convencionais. No Brasil, um país com alta prevalência de depressão e acesso desigual a cuidados de saúde mental, esse número representa milhões de pessoas que esgotaram as opções disponíveis na clínica ordinária.
O que a pesquisa brasileira está mostrando, com rigor metodológico que resistiu ao escrutínio de pares internacionais, é que existem outras opções. Que moléculas extraídas de plantas que crescem no Nordeste, usadas há séculos por povos indígenas e comunidades de terreiro, são capazes de produzir remissão de sintomas depressivos graves com uma única dose, em janelas de tempo que nenhum antidepressivo convencional alcança.
Isso não resolve tudo. Não é a cura da depressão. Não se sabe ainda quem responde melhor, em que condições o benefício se sustenta, quais populações têm maior risco. A pesquisa está em curso.
Mas a pergunta que fica, enquanto os ensaios avançam em Natal e em Ribeirão Preto e em São Paulo, é uma pergunta que vai além da farmacologia: o que mais existe na floresta que ainda não foi ouvido?
Alexandre Chagas
Farmacêutico, Advogado e Terapeuta
Referências Científicas
ARAÚJO, D.B., et al. (2024). Brazilian psychedelic science and the frontiers of psychiatry. Revista Brasileira de Psiquiatria. DOI: 10.47626/1516-4446-2024-3810
FALCHI-CARVALHO, M., et al. (2024). The antidepressant effects of vaporized N,N-dimethyltryptamine: an open-label pilot trial in treatment-resistant depression. Psychedelic Medicine. DOI: 10.1089/psymed.2024.0002
FALCHI-CARVALHO, M., et al. (2025). Rapid and sustained antidepressant effects of vaporized N,N-dimethyltryptamine: a phase 2a clinical trial in treatment-resistant depression. Neuropsychopharmacology, v. 50, n. 6, p. 895–903. DOI: 10.1038/s41386-025-02091-6
HARADA, T.A., et al. (2023). Default mode network modulation by psychedelics: a systematic review. International Journal of Neuropsychopharmacology. DOI: 10.1093/ijnp/pyac074
PALHANO-FONTES, F., et al. (2019). Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled trial. Psychological Medicine, v. 49, p. 655–663. DOI: 10.1017/S0033291718001356
XAVIER DA SILVEIRA, D., et al. (2014). Ibogaine in the treatment of drug dependence: A case series and literature review. Journal of Psychopharmacology.