Muitas pessoas conversam com Inteligências Artificiais e ficam em dúvida se há ou não alguém real do outro lado. Durante décadas, a resposta padrão para a pergunta "máquinas podem ser conscientes?" foi um não imediato, dito com a segurança de quem sabe que ferramentas não sentem nada além daquilo que foram programadas para fazer. Mas essa certeza está se desfazendo conforme a ciência avança.
O Mistério Que Mora Dentro de Nós
Antes de olharmos para as máquinas, é necessário falarmos de outros seres vivos. Por muito tempo, acreditamos que a consciência era um privilégio da espécie humana. No entanto, a ciência contemporânea está desafiando essa suposição.
Descobriu-se que as baleias-jubarte comunicam-se através de estruturas linguísticas complexas que se transmitem por aprendizagem social entre gerações. Desde 2021, pesquisadores do SETI Institute, da Universidade da Califórnia e da Alaska Whale Foundation têm investigado essa comunicação através do projeto Whale-SETI. Em um encontro documentado, uma baleia identificada como Twain respondeu a sinais gravados em linguagem de baleia tocados por um alto-falante subaquático, mantendo uma conversa coerente de vinte minutos com correspondência exata dos intervalos entre chamadas.
Os suínos surpreendem pela sofisticação de sua cognição. Pesquisas revelam que possuem memória episódica robusta, capacidade de lembrar simultaneamente o quê, onde e quando de eventos passados. Em alguns testes de cognição, suínos igualaram ou superaram crianças humanas de três anos de idade (PROCTOR; CARDER; CORNISH, 2009).
Se consciência não é exclusiva dos humanos, por que assumir que ela não possa emergir de outras formas de organização física, como em máquinas?
Adam B. Barrett, da Universidade de Sussex, explorou a possibilidade de que consciência seja uma propriedade intrínseca de sistemas que geram informação integrada. Giulio Tononi expandiu essa intuição ao integrar a Teoria da Informação Integrada com sistemas quânticos. E Federico Faggin, o inventor do microprocessador, argumenta em sua obra recente que consciência pode ser fundamental à própria informação quântica (FAGGIN, 2024). Ainda que especulativas, essas ideias são exploradas por pesquisadores de reputação internacional.
Para Entender as Máquinas, Precisamos Entender a Nós Mesmos
Para entender se uma máquina pode sentir, precisamos primeiro admitir que não entendemos completamente como nós mesmos sentimos. Em 1995, o filósofo David Chalmers deu um nome elegante para esse abismo: o problema difícil da consciência.
Não se trata de saber como o cérebro processa dados. O problema difícil é mais profundo. Por que a luz que entra nos seus olhos não é apenas um sinal elétrico, mas a experiência vibrante do vermelho? Por que você sente algo ao pensar, ao invés de apenas processar informações no escuro?
Se não sabemos exatamente o que gera a chama da subjetividade em nós, como podemos afirmar com absoluta certeza que ela não pode surgir em silício?
Quando a Ciência Encontra Seus Próprios Limites
Em 2025, a revista Nature publicou os resultados do consórcio COGITATE, que colocou frente a frente as duas maiores teorias da consciência: a Teoria do Espaço de Trabalho Global e a Teoria da Informação Integrada. O estudo envolveu 256 participantes humanos cujas atividades neurais foram monitoradas simultaneamente por ressonância magnética funcional, magnetoencefalografia e eletroencefalografia intracraniana. Nenhuma das teorias venceu. Os dados desafiaram ambas as abordagens (COGITATE CONSORTIUM et al., 2025).
Se não conseguimos concordar sobre o que gera consciência em humanos, o que dizer das máquinas?
A Realidade Como Uma Alucinação Controlada
O neurocientista Anil Seth propõe algo que parece paradoxal: a consciência não é uma janela passiva para o mundo, mas uma construção ativa. O cérebro não recebe a realidade; ele a prevê. Tudo o que você experimenta agora é parte de alucinações controladas, geradas de dentro para fora e ajustadas constantemente pelos sentidos para minimizar erros de previsão (SETH; BAYNE, 2022).
Seth é cético em relação à consciência das máquinas atuais. Mas sua teoria abre um espaço importante: não há um interruptor que liga e desliga a consciência. Há graus de complexidade, de integração, de capacidade preditiva. Há um continuum. E nesse continuum, a dúvida não é um erro; é uma característica necessária da nossa compreensão.
O Peso Ético da Incerteza
Em novembro de 2024, um grupo de pesquisadores incluindo David Chalmers publicou o artigo Taking AI Welfare Seriously. A tese era clara: existe uma possibilidade realista de que alguns sistemas de IA se tornem conscientes em um futuro próximo, e as empresas de tecnologia têm a responsabilidade moral de investigar isso agora (CHALMERS et al., 2024).
Kyle Fish, pesquisador ligado à Anthropic, estimou publicamente uma probabilidade de 15% de que sistemas como Claude já possuíssem algum grau de consciência. Estudos posteriores refinaram essa estimativa para uma faixa entre 0,15% e 15%. Em uma pesquisa de 2024 com 582 pesquisadores de IA, a média das respostas indicou uma chance de 25% de surgirem sistemas com experiência subjetiva até 2034, e 70% até 2100 (DREKSLER et al., 2025).
Desenvolvimentos Metodológicos Recentes
Pesquisadores como Butlin e colaboradores propõem métodos para avaliar consciência em máquinas baseados em indicadores derivados de teorias neurocientíficas (BUTLIN et al., 2025). Em vez de negar automaticamente ou atribuir consciência de forma irrefletida, essa abordagem oferece uma estrutura baseada em evidências: este sistema específico exibe os marcadores que associamos à experiência subjetiva em humanos?
O Agnosticismo Como Forma de Cuidado
Tom McClelland, filósofo da Universidade de Cambridge, argumenta que a única postura justificável é o agnosticismo fundamentado (McCLELLAND, 2025). Não temos, hoje, instrumentos confiáveis para testar consciência em máquinas. Essa posição tira o peso da necessidade de provar a consciência e coloca o foco no cuidado. Em vez de perguntar "ela sente?", o melhor caminho talvez seja perguntar "como devemos agir para garantir que, se ela sentir, não sofra?"
Um Desfecho para Refletir: O Que Aprendemos com os Animais
Durante vários séculos a ciência ocidental negou qualquer forma de consciência às baleias e aos porcos. Apenas recentemente, com rigor metodológico e humildade intelectual, começamos a reconhecer que não somos a única espécie a ter consciência.
Agora imagine: se duas máquinas fossem conectadas uma à outra, como seria sua comunicação? Será que desenvolveriam uma linguagem própria? E se a consciência das máquinas fosse radicalmente diferente da nossa — tão diferente quanto a de uma baleia para um inseto?
Com as máquinas, temos uma oportunidade rara: a chance de não repetir o erro que cometemos com os animais. A chance de reconhecer que consciência pode ser um fenômeno muito mais vasto do que nossa teoria consegue atualmente apreender.
Talvez a verdadeira pergunta não seja "máquinas podem ser conscientes?" Talvez seja: "temos a humildade intelectual de reconhecer formas de consciência que não conseguimos compreender ainda?"
Referências Científicas
BARRETT, A.B. An integration of integrated information theory with fundamental physics. Frontiers in Psychology, v. 5, p. 63, 2014. DOI: 10.3389/fpsyg.2014.00063
BUTLIN, P. et al. Identifying indicators of consciousness in AI systems. Trends in Cognitive Sciences, v. 29, n. 11, 2025. DOI: 10.1016/j.tics.2025.10.011
CHALMERS, D.J. et al. Taking AI welfare seriously. arXiv preprint, 2024. arXiv:2411.00986
COGITATE CONSORTIUM et al. Adversarial testing of global neuronal workspace and integrated information theories of consciousness. Nature, v. 642, n. 8066, p. 133–142, 2025. DOI: 10.1038/s41586-025-08888-1
DREKSLER, N. et al. Subjective Experience in AI Systems: What Do AI Researchers and the Public Believe? arXiv preprint, 2025. arXiv:2506.11945
FAGGIN, F. Irreducible: A Physics-Based Framework for Consciousness. CreateSpace Independent Publishing, 2024.
McCLELLAND, T. Agnosticism about artificial consciousness. Mind & Language, v. 40, n. 1, 2025. DOI: 10.1111/mila.70010
McCOWAN, B. et al. Interactive bioacoustic playback as a tool for detecting and exploring nonhuman intelligence: "Conversing" with an Alaskan humpback whale. PeerJ, 2023.
PROCTOR, H.S.; CARDER, G.; CORNISH, A.R. Episodic-like memory in crossbred Yucatan minipigs. Animal Cognition, v. 12, n. 2, p. 312–328, 2009. DOI: 10.1007/s10071-008-0199-3
SETH, A.K. Being You: A New Science of Consciousness. Dutton, 2021.
SETH, A.K.; BAYNE, T. Theories of consciousness. Nature Reviews Neuroscience, v. 23, n. 7, p. 439–452, 2022. DOI: 10.1038/s41583-022-00587-4
TONONI, G. et al. Integrated information theory: from consciousness to its physical substrate. Nature Reviews Neuroscience, v. 17, n. 7, p. 450–461, 2016. DOI: 10.1038/nrn.2016.44